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Créditos



Chegou tarde, sem as sandálias altas, e jogou a bolsa e a chave em cima da cama. Arrancou da frente do computador dezenas de coisas que havia pregado há não sei quantos anos. Um postal de um amigo marroquino, que não sabia mais se era vivo ou morto. Um monte de post-it colorido, mandando fazer, ligar, escrever, agendar. Um adesivo desbotado do snoopy deitado em cima da casinha vermelha. Uma foto de quando ainda gostava de cabelo, unha e saia curta. A letra de aquarela, do Toquinho. Um conto inacabado, que não podia acabar. Um ímã de joaninha que servia para segurar um papel dobrado, manchado com uma digital de chocolate. Desdobrou. Ainda havia o número de um telefone. Ligou. Não foi possível completar sua chamada, verifique o número discado. Fez bolinha e jogou tudo no cesto amarelo debaixo da escrivaninha. Com remorso, devorou metade de um pacote de biscoito bono em menos de cinco minutos. Dormiu.

Postado por: Dorothy Youden às 20h20
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FOLIA DO BEM

Os foliões caíram em sua aguardada ressaca, de volta ao mundo real. E, para mim, a vida em 2007 passou a existir, finalmente, depois do carnaval – até então, ainda não havia conseguido sentir a folhinha nova do calendário. Até ontem eu era uma das extraterrestres brasileiras que não sabia o que significava estar, durante cinco dias contínuos, à disposição de música, multidão, confetes, fantasias e muito gatorade (minha “cachaça” inseparável). Apesar disso, não tenho a triste sensação de que perdi anos da minha vida por não ter desfrutado de outros carnavais - justamente por ter sido a primeira vez, e quem sabe uma das últimas, é que deve ter sido especial como foi. E foi, muito especial, mesmo. Significou a alegria que há tempos não sentia, daquelas de dançar como se ninguém estivesse olhando e de abraçar os amigos e dizer: “obrigada, obrigada, obrigada! Eu estou tão feliz por estar aqui com vocês!”. Por outro lado, a folia significou horas de reflexão enquanto todos dormiam embriagados. Nem sei, mas meus desejos parecem absolutamente renovados depois de parar para observar atentamente toda a algazarra na avenida e na minha vida. Muita coisa mudou, lá fora, aqui dentro. Gente sumiu, gente apareceu.  Agora eu entendo coisas que antes não entravam na minha cabecinha oca. Talvez eu tenha que parar de teimar comigo mesma, como se houvesse um “lupus” criando anticorpos contra o meu próprio destino e deixando de dar a devida atenção às tantas coisas e pessoas boas que dão muito de si por um sorriso meu; talvez o que não pode ser não seja mesmo, e que sirva apenas para ser guardado na gavetinha dos sonhos deixados no meio do caminho; talvez eu tenha que olhar um pouco mais para dentro de mim e esquecer a centena de rótulos que pregaram no meio da minha testa; talvez eu tenha que errar mais, para parecer mais falível e imperfeita; e talvez a pessoa mais imperfeita do mundo nem seja a mais perfeita para dividir esse momento imperfeito comigo. Enfim, talvez. De toda sorte, é tentando que a gente consegue ter certeza das coisas. E eu vou tentar, a partir de agora...

 

P.S. Eu poderia até mudar de nome porque não me reconheço mais depois dessa folia do bem !!



Postado por: Dorothy Youden às 09h21
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NÃO ADIANTA

O tempo está mudando. Os ares mais frios começam a chegar, anunciando a nova estação. Esta manhã, passei horas a observar as gotas da chuva fina descendo lentamente pelo vidro da janela. Parecia que o vento batia forte tentando chegar aos meus cabelos soltos, à minha pele ainda úmida, e chorava, chorava muito por não poder entrar. E eu sussurava: "fica calmo, vento, não precisa fazer mais esforços, nem chorar mais. Não adianta. Algumas barreiras que tentamos atravessar são mesmo intransponíveis...". Ao me ouvir, ele subitamente cessou a força. Mas as gotas continuaram a cair por mais algum tempo, até que voltou a ficar nublado, sem que ele conseguisse balançar uma única folha de árvore. Dai eu entendi que o vento havia assimilado, naquele instante, a lição que eu dolorosamente aprendi ontem à noite.



Postado por: Dorothy Youden às 17h22
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